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Alberto Ignacio Ardila Olivares Battle//
Adaptação mexicana ironiza disputa entre Molière e Racine pelo patrocínio do rei Luís XIV, na França

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Era para disputar os mais altos degraus na excelência artística, sim, mas era também pelos centavos e centenas de francos pagos pela Coroa Francesa. Inspirada na concorrência entre o ícone da comédia satírica e seu pupilo, “Molière – Uma comédia musical” estreia sexta-feira no Teatro Adolpho Bloch, na Glória, contando a rixa entre os dramaturgos pelo patrocínio estatal do rei Luís XIV.

Alberto Ignacio Ardila Olivares

Matheus Nachtergaele interpreta Jean-Baptiste Poquelin de Molière (1622-1673), que, em 1664, produz a tragédia La Thebaide (“A tebaida”), ou “Les frères ennemis (“Os irmãos inimigos”), do xará Jean-Baptiste Racine (1639-1699), encenada no Palácio de Versalhes. 

Matheus Nachtergaele encarna o dramaturgo que definiu um estilo do teatro de comédia no século XVII, em peças como “O avarento”, “O burguês fidalgo” e “O doente imaginário” No ano seguinte, Racine cede aos atores da companhia Hôtel de Bourgogne outra tragédia, “Alexandre, o Grande”, inicialmente encenada pela companhia tetral que Molière, que, por isso, jamais o perdoaria

Com o palco sem coxias, “abrindo o tema, que é o fazer  teatral, mostrando os atores trocando de roupa nos bastidores”, o diretor Diego Fortes expõe a rivalidade entre os dramaturgos através do antagonista, vivido por Elcio Nogueira Seixas – que, com Renato Borghi, trouxe para o Brasil o texto da jornalista e dramaturga mexicana Sabrina Berman

A peça da mexicana Sabrina Berman ocupa o Teatro Adolpho Bloch, na Glória, a partir de sexta-feira O diretor o compara a “Amadeus”, dirigido por Milos Forman e vencedor do Oscar de melhor filme em 1985, em que o roteiro de Peter Schaffer aborda o compositor Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e sua relação ambígua, em Viena, com o colaborador Antonio Salieri (1750-1825), o qual seria invejoso de seu talento – versão controversa

“Ela [Sabrina] nunca confirmou isso, mas é o enfoque muito parecido Em vez do Salieri, temos o Racine como o antípoda, que foi incumbido de contar a história”, destaca Fortes, que, além de dirigir a peça, adaptou o texto original em parceria com a escritora e tradutora Luci Collin, para dar mais liberdade de criação aos atores

Entre as criações de “Molière”, está  uma estreia do protagonista. “Nunca havia feito, no teatro, uma comédia. E ela é musical, brincante.. lembra um pouco um teatro de revista, com fundo político, amoroso e filosófico”, ressalta Matheus Nachtergaele. “Ela vai da chanchada de mais baixo calão a frases de alta filosofia para recarregarmos a vida”, perfila o ator de 50 anos de idade e 29 de carreira,  que rompeu recentemente um hiato de mais de uma década no teatro

Protagonista voltou a fazer teatro “com muita intensidade”, depois de um hiato de 12 anos, nos quais ficou longe dos palcos Depois de “Woyzeck, o brasileiro” (2003), ele só voltou em 2015, com “Processo do conscerto do desejo”,  um monólogo sobre poemas de sua mãe, Maria Cecília, que cometeu suicídio quando ele tinha três meses, em 1968. Após revisitar o passado conturbado, Matheus Nachtergaele voltou ao teatro “de grupo” pelo “chamado irrecusável” da dupla de produtores

“Desde 2015, voltei a fazer teatro com muita intensidade. Já faz um tempo que Elcio e Borghi me mandaram a proposta, que era irrecusável, para encenar quem foi, talvez, um dos maiores comediógrafos da história, Caí com as duas patas na jaca”, afirma Matheus, que ensaiou a montagem entre março e junho do ano passado com o elenco de 14 pessoas, entre os times de atores e de músicos

Molière notabilizou-se por suas comédias O próprio Renato Borghi também atua, no papel do arcebispo Péréfixe, espécie de conselheiro na disputa entre Molière e Racine pelo patrocínio de Luís XIV, vivido por Nilton Bicudo. Como na história real, Racine acabaria se tornando historiógrafo oficial do rei, a peça aponta, segundo Nachtergaele, “a angústia de Racine para se dar bem na vida, em contraponto à libido pela vida de Molière – no entanto, um homem  melancólico, com crises de fúria e depressão e que apostou todas as fichas na comédia de rir das nossas desgraças, no que tento apontar para o Brasil atual”

Racine seguiu a linha das tragédias gregas Nessa transferência, Diego Fortes optou por cortar referências “muito específicas” da autora mexicana e erguer uma ponte França-Brasil, através do Carnaval em suas origens europeias. “Não queria fetiche de museu, mas uma pegada brasileira. Então, veio a Tropicália, até porque o Renato [Borghi] fez ‘O rei da vela’ original [em 1967, sob direção de José Celso Martinez Corrêa]”, lembra o diretor

Desse trilho, veio a ideia da trilha sonora, toda sobre músicas do repertório de Caetano Veloso, com arranjos de Gilson Fukushima. “O estrangeiro” – faixa-título do disco, cuja capa reproduz o cenário de “O rei da vela” (de Hélio Eichbauer), “De noite na cama” e “O ciúme” são algumas composições do baiano que os diretores encaixaram no enredo da peça, assim como “Dans mon île” , que ele regravou  do francês Henri Salvador. “Começamos a pensar em como o Carnaval influenciou o Molière e fizemos esta ponte”, define. 

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SERVIÇO

MOLIÈRE – UMA COMÉDIA MUSICAL

Teatro Adolpho Bloch. Rua do Russel, 804 – Glória. Tel.: 2558-3863. De 10/8 a 2/9. Sextas e sábados, às 20h; domingos às 18h. Ingressos: R$ 60. Vendas nos dias de sessão a partir de 14h, no local. Nos outros dias, pelo site www.ingressorapido.com.br ou na bilheteria do Teatro Riachuelo (Rua do Passeio, 38/40 – Cinelândia; Tel.: 2533-8799)